
Registros de uma viagem que apaixona
29 de setembro de 2009. Amanhece, mas o dia começa sob uma aparência nublada e fria. Às 07:40, desço para o encontro do 4 rodas que me levaria às ruínas das Figuras, comemorando hoje os festejos do Santo dos Garimpeiros: São Miguel das Figuras. O lugar foi construído estrategicamente entre os municípios de Jacobina, Caém, Saúde e Mirangaba. Em meados do século XVIII, a Igreja foi levantada como um marco do povoamento, servindo, ainda, de referência da corrida pelo ouro, da qual Romão Gramacho Falcão foi o grande desbravador. Segundo relatos dos nativos, o barão possuía cerca de duzentos escravos, sendo estes, os protagonistas da construção da Igreja de Pedras. Para alguns, é impossível um ser humano levantar tamanho peso: “só pode ter sido algum pacto”, desabafam. Atualmente a maioria desses moradores não mais reside em povoamentos ao lado das ruínas, mas a alguns quilômetros de distância. Mais próximos da cidade, no entanto, permanentemente ligados à história local.
Para chegar até às ruínas, não bastam pés ou patas: é preciso muita fé e determinação, o que é reforçado pelo perfil dos personagens no interior do 4 rodas: entre eles, irmã Alzira e Pe. José, austríaco que trabalha na região há mais de trinta anos. Diante do sentimento de inconformismo daquela em virtude de partidarismos tão regionais, este ressalta a necessidade de que o "sentimento não pode parar", e já que a luta continua, abrimos caminho por entre motos e animais de carga, que, concomitantemente, sobem as montanhas num abre e fecha de cancelas harmonioso. As conversas sobre movimentos sociais, sociedade civil organizada, preservação ambiental, importância cultural, desbravamento da história in loco são interrompidas quando vemos um veículo estacionado no topo da serra à esquerda, num caminho aparentemente aberto como ponto de estudo para possível exploração de minério. Mais à frente avistamos um senhor de muletas sentado numa grande pedra, ao lado de dois veículos que não conseguiram escalar as serras íngremes - e as facilidades são muito maiores, se comparadas há outros tempos. Pe. José, sentado no banco da frente, ao lado do motorista, também ativista social, narra o episódio da vinda do diretor e engenheiro do IPHAN em 1980: “um não aguentou subir, o outro chegou as ruínas, se encantou pelo local e sua história, mas, no final da conversa, ambos alegaram que o difícil acesso atrapalharia qualquer obra de restauração”. 29 anos se passaram, e nenhum avanço quanto ao tombamento da Igreja, apenas discussões corriqueiras sem engajamento real do poder público... entre as alternativas listadas, surge a articulação entre os gestores das quatro cidades, em parceria com o governo do estado e a União.
Pelo caminho de sol a pino, duas ou quatro rodas tecnológicas convivem lado a lado com cavalos, jumentos, cachorros e pernas suadas em sua meta: assistir à missa às 10:00h. Para alguns grupos, beber, comer e jogar conversa fora talvez seja mais importante do que calar-se, ouvir e avaliar opiniões alheias. Pelas frestas da Igreja, observamos o lixo que aos poucos se acumula: latinhas, sacolas plásticas, vidros, e nos perguntamos: “onde está a consciência ambiental?” Outro grande desafio a se atingir! Logo, iniciamos um mutirão para recolher pelo menos parte dos resíduos descartados naquela manhã clara, límpida e tão envolvente.
Estudiosos, pesquisadores, religiosos e desbravadores também marcam presença na Missa de São Miguel das Figuras: cariocas sentem-se encantados pelos resquícios que escondem tanto do passado (mesmo degradados por elementos naturais ou intervenção humana): missões, exploração de ouro, aldeamentos indígenas e quilombolas, laços de família e de irmandade. Por aqui ainda se costuma chamar os conhecidos de “cumpadres” e “cumadres”; agradar o visitante com cachos de bananas, uma das especiarias do lugar, é ação rotineira dos nativos tão hospitaleiros desta terra de riquezas.


Após a missa, a famosa farofa é repartida entre os visitantes, ao lado de geladinhos vendidos por nativos que em seu caçuá, trouxeram o ganha pão, ainda que para isso "precisem" deixar parte de seus produtos descartada nas gramas das ruínas, alegando excesso de peso. Os mais antigos insistem em lembrar imagens guardadas na memória, ou em cantos dos casebres de Coqueiro, Barrocão, e municípios vizinhos. “Fui padrinho desse casamento que o padre está citando”, afirma um senhor de cabelos grisalhos e blusa azul celestial que se encontrava ao meu lado durante o sermão. Nos palcos alternativos, “bebedeira” e muito samba embalado ao som de pífanos, conversas e projetos discutidos diante do encontro de vozes plurais.


A construção da Casa de Apoio foi citada através da leitura de uma carta de quem já esteve no local e não se deu bem diante das poucas alternativas estruturais. Cena que acabamos de constatar através da vertigem de uma senhora por conta da alta temperatura: a céu aberto, o que sobrou da Igreja serve de abrigo durante as horas destinadas a celebrações e festividades. Faça chuva ou faça sol, as sombrinhas são companheiras fiéis dos que insistem em superar os próprios limites. Tanto é que na direção do altar, o colorido delas se mistura aos arranjos e acessórios postos ali: bandeira do Brasil e imagens santificadas, sob uma pequena cruz de madeira.


Na volta para casa, escolhemos o caminho de Santa Cruz do Coqueiro, onde as formas esculpidas nas pedras filosofais dão vida à criatividade. Senhoras e senhores mais parecem jovens com tanta disposição. A vontade de vencer os transforma em guerreiros, heróis do dia-a-dia, desmistificando as limitações físicas pelo desenvolvimento profundo do campo espiritual. As crianças, por sua vez, reclamam, clamando por avistar o ônibus que nos levaria de volta para Jacobina. As narrativas sobre descobertas contemporâneas de caixões de ouro enterrados há anos debaixo da terra das Figuras são recorrentes. Durante, aproximadamente três horas na trilha de volta para casa, lembramos de um passado que se foi, mas permanece vivo para os herdeiros deste lugar. Uma Oca abandonada, possivelmente pelos nossos antepassados indígenas, é referida como a Pedra Escrita, na qual os nativos deixaram marcas de uma civilização.
De bocas secas, todos clamam por gotas de água, após horas de caminhada sobre a areia - por vezes esbranquiçada, noutras enegrecida - rodeados por uma paisagem única em sua magia, afinal, estamos na rota das Figuras de Pedras, lapidadas por toques meramente naturais - não é à toa que pedreiras se instalam no local em prol do enriquecimento pela extração. No trajeto, cânticos religiosos e enraizados na cultura popular embalam corpos já em movimento pelo sacudir das subidas e descidas de chão batido. A primeira parada, antes de seguir pela estrada afora, é em Santa Cruz para hidratar os corpos cansados, no entanto, energizados com boas idéias a partir da troca de experiências.
Às 18h, estacionamos na Cidade do Ouro, ironicamente qualidade que se refere ao recurso ainda hoje explorado, porém, levado das mãos de garimpeiros solitários às grandes multinacionais exploradoras. Todos já sentem saudades e dizem: "até à próxima, se Deus permitir!" Indagando quando acontecerá o evento seguinte nas ruínas de encantamentos e surpresas.